A disputa de longa data sobre a Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD) — um projeto hidroelétrico colossal no Nilo Azul — colocou o Egito, a Etiópia e o Sudão em uma encruzilhada diplomática. Recentemente, especialistas egípcios renovaram o otimismo quanto a uma possível solução definitiva, apontando a mediação dos Estados Unidos sob a figura de Donald Trump como uma "oportunidade valiosa". A tese central destes analistas é clara: Washington possui a alavancagem necessária para "submeter" ou pressionar a Etiópia a aceitar um acordo vinculativo.
Mas o que sustenta essa confiança na capacidade coercitiva da diplomacia norte-americana neste caso específico?
O Peso da "Diplomacia Transacional"
A crença de que Trump é capaz de resolver o impasse baseia-se no estilo de negociação agressiva e transacional que marcou sua política externa. Diferente de abordagens multilaterais mais brandas (como as da União Africana), a estratégia atribuída a Trump envolve o uso direto de incentivos econômicos e, crucialmente, punições financeiras.
Especialistas em Cairo argumentam que a Etiópia, apesar de seu crescimento econômico, ainda depende significativamente de ajuda externa e apoio de instituições financeiras internacionais (como o FMI e o Banco Mundial), onde os EUA detêm poder de veto ou influência decisiva.
Ponto de Análise: A oferta de mediação é vista pelo Cairo não apenas como um convite ao diálogo, mas como a entrada de um "fiador" capaz de impor custos reais à Addis Abeba caso haja intransigência.
Precedentes Históricos e Fontes de Tensão
A confiança egípcia não é infundada, baseando-se em eventos documentados onde a administração Trump demonstrou disposição para tomar partido em defesa dos interesses de segurança hídrica do Egito.
1. O Corte de Ajuda Externa (2020) Durante a primeira tentativa de mediação em Washington, que resultou em um acordo assinado apenas pelo Egito, os EUA reagiram à recusa da Etiópia em assinar o documento. Conforme reportado pela Reuters e pela Foreign Policy, o Departamento de Estado dos EUA suspendeu, na época, cerca de 100 milhões de dólares em ajuda à Etiópia, citando a falta de progresso nas negociações. Isso sinalizou que a aliança com o Egito (um parceiro estratégico fundamental no Oriente Médio) tinha peso superior na balança de Washington.
2. A Retórica de Segurança O momento mais tenso ocorreu quando Donald Trump sugeriu, em uma chamada telefônica pública com o então Primeiro-Ministro do Sudão, que o Egito poderia acabar "explodindo a barragem" se não houvesse acordo. Esta declaração, amplamente coberta pela BBC e Al Jazeera, foi interpretada por especialistas como uma forma extrema de pressão psicológica sobre a Etiópia, validando a gravidade existencial que o Egito atribui à questão da água.
Por que o Egito vê uma "Oportunidade Valiosa"?
Para o governo de Abdel Fattah el-Sisi, a mediação americana é preferível à da União Africana (UA). Enquanto a UA tende a favorecer soluções africanas que priorizam o direito ao desenvolvimento e evitam interferência externa pesada, os EUA focam na estabilidade regional e na segurança de aliados militares históricos.
Os especialistas citados na notícia acreditam que Trump pode romper o ciclo de negociações circulares (que duram mais de uma década) ao:
- Exigir um calendário rígido para o enchimento da barragem em anos de seca.
- Pressionar por um mecanismo de resolução de disputas legalmente vinculativo — o principal ponto de discórdia da Etiópia, que prefere diretrizes não obrigatórias.
O Outro Lado: A Resistência Etíope
Apesar da pressão, a narrativa de que a Etiópia será facilmente "submetida" enfrenta obstáculos. Addis Abeba tratou a barragem como uma questão de soberania nacional inegociável. O governo etíope, historicamente, utilizou a pressão externa para unificar a base doméstica, enquadrando a mediação dos EUA como neocolonialismo.
Segundo análises do International Crisis Group, a tática de pressão máxima pode endurecer a posição etíope em vez de amolecê-la, visto que o governo não pode parecer fraco perante sua própria população em um projeto financiado pelos próprios cidadãos.
Conclusão
A visão dos especialistas egípcios de que Trump é capaz de resolver a crise reflete a realidade do Hard Power (poder coercitivo). Se os EUA decidirem condicionar o acesso da Etiópia aos mercados globais e fundos de desenvolvimento à assinatura de um acordo sobre o Nilo, o custo da resistência para Addis Abeba pode se tornar insustentável. Contudo, transformar essa pressão em um acordo duradouro — e não apenas em ressentimento diplomático — continua sendo o verdadeiro desafio.
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