Em pleno século XXI, o acesso à informação tornou-se um campo de batalha crucial. No Irão, enfrentando cortes generalizados de internet impostos pelo regime, a população encontrou no serviço de satélite Starlink uma via vital de comunicação com o mundo exterior. No entanto, as autoridades de Teerão não ficaram de braços cruzados e recorreram a métodos altamente sofisticados para interferir com este sinal, desencadeando uma "guerra eletrónica" que especialistas acreditam ter raízes em tecnologias russas.
O Arsenal Tecnológico da Interferência
Para tentar silenciar a Starlink, o Irão não depende de uma única tática, mas sim de uma combinação complexa de ciberataques e assaltos diretos às frequências de rádio.
O primeiro vetor de ataque é a desorientação. O sistema Starlink depende da precisão. Para que a antena terrestre do utilizador comunique com o satélite no espaço, ela precisa de saber exatamente onde está. As autoridades iranianas atacam este elo vital interferindo com sinais de GPS/GNSS. O objetivo é impedir que o terminal determine a sua localização geográfica, o que pode causar uma perda total de conexão ou tornar o equipamento inutilizável se este depender exclusivamente do GPS para se orientar.
O segundo vetor é o ruído bruto. Trata-se de uma interferência ativa e direta na Banda Ka, as frequências de rádio usadas pelos terminais para "falar" com os satélites. As forças iranianas inundam estas frequências com ruído ou sinais falsos, como se tentassem abafar uma conversa gritando mais alto. O efeito é devastador: uma perda massiva de pacotes de dados (chegando a 80%), tornando a navegação na web ou chamadas de vídeo quase impossíveis, embora mensagens de texto simples ainda possam passar.
Para piorar a situação, esta interferência é "móvel". Unidades de interferência são transportadas entre bairros, especialmente em Teerão, para alvejar áreas específicas dinamicamente. Simultaneamente, há relatos de tentativas de descodificar as comunicações e esforços contínuos para localizar fisicamente e desativar os terminais terrestres.
A Sombra de Moscovo: A Conexão Russa
A sofisticação destes ataques levantou suspeitas imediatas entre especialistas internacionais. Os métodos observados no Irão assemelham-se inquietantemente às táticas de guerra eletrónica utilizadas pela Rússia na Ucrânia.
Existem fortes indícios de transferência de conhecimento ou tecnologia. O Irão discutiu abertamente a aquisição de sistemas russos avançados como o "Krasukha-4", concebido especificamente para interferir com satélites de órbita baixa a centenas de quilómetros de distância, e o "Murmansk-BN". Além disso, o próprio Irão desenvolveu o "Cobra V8", um sistema doméstico considerado por muitos como uma engenharia reversa de tecnologia russa, capaz de intercetar e interferir sinais. O padrão tático de interferência móvel em Teerão é visto como uma cópia direta das operações russas no teatro de guerra ucraniano.
O Jogo do Gato e do Rato: Resistência e Adaptação
Apesar do poderio tecnológico do regime, desenrola-se um conflito contínuo entre os engenheiros da SpaceX, os utilizadores no terreno e as autoridades iranianas.
A Starlink respondeu rapidamente com atualizações de software (firmware). Estas atualizações permitem agora que os terminais utilizem os próprios satélites da constelação para determinar a sua localização, contornando a dependência do GPS que está sob ataque. Além disso, o sistema tenta agora redirecionar automaticamente a ligação de um satélite que esteja a sofrer interferência para outro, numa tentativa de manter o serviço ativo.
No terreno, os utilizadores recorrem a soluções práticas e arriscadas, alterando constantemente a localização dos terminais ou reorientando-os manualmente na busca desesperada por um sinal mais limpo.
A Realidade do Conflito
Esta guerra tecnológica está longe de terminar. A interferência iraniana tem tido um sucesso parcial; embora não interrompa totalmente o serviço em todos os locais, degrada significativamente a sua qualidade na capital, Teerão. Estima-se que existam apenas cerca de 50.000 terminais Starlink no país — uma fração mínima da população — mas para esses utilizadores, o serviço continua a ser uma janela crucial para a verdade, mantida aberta através de uma corrida tecnológica constante contra um regime determinado a fechá-la.

