Este artigo explora as possíveis repercussões económicas com base numa leitura dos dados comerciais e das linhas de abastecimento logístico da região.
1. Hegemonia Comercial ou Exposição Económica?
Dados referentes a 2025 indicam que a quota dos EAU no comércio intra-CCG (Conselho de Cooperação do Golfo) atingiu cerca de 66,5 mil milhões de dólares, o que representa mais de 50% do comércio intra-CCG total, estimado em cerca de 131,6 mil milhões de dólares. Em contraste, a Arábia Saudita detém apenas cerca de 20%.
Embora estes números possam, à primeira vista, parecer uma prova da força da economia dos EAU, a leitura geoestratégica saudita vê neles um "ponto fraco". O argumento reside no facto de esta economia depender excessivamente da exportação (ou reexportação) para os países vizinhos, tornando os EAU a parte "com mais a perder" caso estes fluxos sejam interrompidos, dado que o seu modelo económico assenta em ser um centro de distribuição e não um mercado consumidor final com a dimensão do mercado saudita.
2. "O Posto Fronteiriço de Al-Batha": A Artéria Vital... ou o Instrumento de Estrangulamento
O comércio de trânsito dos EAU, nomeadamente a mercadoria de "Jebel Ali", depende quase inteiramente do único ponto de passagem terrestre com a Arábia Saudita (o posto de Al-Batha). Esta passagem não é apenas uma porta de entrada para o mercado saudita, mas também a passagem obrigatória para as exportações destinadas a:
* Os países do Levante (Jordânia, Iraque, Síria e Líbano).
O encerramento desta artéria vital significaria não só a perda do mercado saudita, mas também o isolamento terrestre total das mercadorias dos EAU em relação ao seu hinterland árabe, o que poderia custar à economia dos EAU perdas anuais estimadas em milhares de milhões de dólares e assestar um golpe fatal no seu sector de serviços logísticos.
3. Empresas Estrangeiras: A Migração Forçada
Uma das repercussões económicas mais graves deste cenário hipotético seria o destino das empresas globais com sede em Dubai. Se as cadeias de abastecimento através das fronteiras terrestres fossem interrompidas, dezenas de empresas fabricantes e investidoras ver-se-iam perante a única opção de salvar os seus negócios: transferir as suas operações e sedes para a Arábia Saudita ou para outros países do Golfo que lhes garantissem uma exportação e distribuição sem obstáculos, o que está alinhado com a estratégia actual de Riade para atrair sedes regionais.
4. O Eixo Saudita-Omã: Um Cerco Duplo
As análises acrescentam outra dimensão à crise, apontando para uma mudança na posição do Omã. Os movimentos dos EAU no Iémen (apoio ao Conselho de Transição do Sul) e o seu impacto na fronteira sul do Sultanato são vistos como uma fonte de preocupação em termos de segurança para Mascate.
Esta apreensão em matéria de segurança levou o Omã – segundo esta visão – a aproximar-se da posição saudita para unificar a frente contra os desafios regionais. O cenário "pesadelo" para a economia dos EAU consistiria num passo coordenado conjunto:
* Encerramento dos pontos de passagem sauditas (a norte e a oeste).
* Encerramento dos pontos de passagem omanitas (a sul).
Este possível "cerco aéreo e terrestre" colocaria os EAU num isolamento geográfico asfixiante, levando a um grande revés nos sectores do turismo, indústria e comércio, e remodelando por completo o mapa económico do Golfo.
Conclusão
Esta visão conclui que o poder económico dos EAU, assente no comércio intra-regional e na reexportação, permanece refém do "consentimento geopolítico" dos seus vizinhos maiores, nomeadamente a Arábia Saudita e o Omã. Estas análises dirigem uma mensagem de advertência de que a persistência de divergências em dossiês políticos e de segurança poderá levar Riade e Mascate a usar o "veto económico", o que poderá impor uma nova realidade que force o centro de decisão de Abu Dhabi a recalcular a sua estratégia para evitar um isolamento demasiado custoso.
