18 de Janeiro de 2026 - MENA24.com
A cidade de Alepo, um barómetro histórico das tensões sírias, voltou a ser palco de violência no final do último ano. Na noite de segunda-feira, 22 de dezembro de 2025, uma escalada militar súbita entre as Forças Democráticas Sírias (SDF) e as tropas do Governo Sírio (Governo de Transição) nos bairros de Sheikh Maqsood e Ashrafieh resultou em cinco mortos e vários feridos, provocando uma nova onda de deslocamento civil.
Este incidente não foi apenas uma violação de segurança isolada; foi um sintoma agudo da fragilidade dos arranjos de segurança pós-conflito e um teste de fogo ao "Acordo de 10 de Março", assinado entre o Presidente Ahmed Al-Sharaa e o comandante das SDF, Mazloum Abdi.
O Timing Político: A Sombra de Ancara
O momento do confronto não poderia ter sido mais sensível. Os disparos em Alepo ecoaram enquanto uma delegação turca de alto nível — incluindo os ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa, bem como o chefe dos serviços de inteligência — aterrava em Damasco.
As discussões turco-sírias centravam-se precisamente nas alternativas para o caso de o acordo de integração das SDF falhar. A coincidência temporal levanta suspeitas de que a escalada possa ter sido uma mensagem política deliberada: ou uma pressão de Damasco (apoiada por Ancara) para forçar concessões, ou uma manobra de fações dentro das SDF para sabotar uma aproximação que consideram existencialmente perigosa.
O Nó Górdio: A Integração Militar e o Petróleo
A raiz do conflito reside na estagnação do processo de fusão das SDF no novo Exército Sírio. Com o prazo do final de 2025 a expirar, a falta de progressos tangíveis expôs um fosso ideológico e prático:
A Visão de Damasco: O governo propôs dividir as SDF em três corpos de exército implantados a leste do Eufrates, integrados na cadeia de comando nacional. Para Damasco, isto é uma restauração necessária da soberania estatal.
Os Receios das SDF: A liderança curda teme que esta estrutura desmantele a sua autonomia, dissolva as suas unidades de elite e, crucialmente, retire o controlo sobre os recursos financeiros, especificamente as receitas do petróleo.
As SDF continuam a insistir numa descentralização que roça o federalismo político, enquanto o Governo Sírio vê nessa postura uma ameaça à integridade territorial, descrevendo-a como a consagração de "entidades de facto".
Cenários Futuros: Entre a Razão e o Abismo
A análise da equipa MENA24 sugere três trajetórias possíveis para o início de 2026:
Escalada Total: O colapso das negociações levaria a uma ofensiva do exército sírio, provavelmente com apoio logístico turco, visando áreas a oeste do Eufrates (Manbij, Tal Rifaat). Este cenário teria custos humanitários devastadores e resultados incertos.
Status Quo Frágil: A continuação de uma "paz armada", pontuada por escaramuças como a de Alepo. É o cenário mais provável a curto prazo, servindo para ganhar tempo enquanto se renegoceiam prazos.
Integração Gradual: Um compromisso onde as SDF aceitam a integração em troca de garantias constitucionais e representação política.
Conclusão
Os eventos de Alepo serviram de alerta: o Acordo de 10 de Março corre o risco de se tornar uma "letra morta" se não for traduzido em mecanismos executivos claros. A lacuna entre a retórica de unidade das SDF e as exigências de soberania de Damasco está a aumentar. Sem uma mediação internacional eficaz e concessões dolorosas de ambos os lados, o nordeste da Síria poderá estar à beira de um novo ciclo de instabilidade, onde a disputa pela forma do Estado se sobrepõe à necessidade de reconstrução nacional.
