Rabat, 6 de fevereiro de 2026 (MENA24.com)
A segunda volta das eleições presidenciais em Portugal assume um significado que ultrapassa largamente o confronto político tradicional. A sua realização num contexto marcado por cheias severas no centro e no sul do país transforma este ato democrático num teste real à resiliência institucional do Estado português perante crises complexas e simultâneas, onde o fator climático deixou de ser exceção para se tornar variável estrutural.
A experiência comparada demonstra que, em períodos de crise profunda, as sociedades democráticas tendem a reduzir a margem de risco político. As dificuldades impostas pelas inundações — evacuações, falhas nos serviços essenciais e perturbações no processo eleitoral — reforçaram a procura por estabilidade, previsibilidade e liderança responsável.
O eleitorado, confrontado com a vulnerabilidade coletiva, privilegia figuras associadas à continuidade institucional e à capacidade de gestão de riscos.
É neste enquadramento que se inscreve a dinâmica favorável ao candidato socialista moderado, António José Seguro. A sua imagem política responde a uma expectativa clara: a de uma presidência que funcione como âncora institucional num período em que as ameaças deixaram de ser apenas económicas ou sociais, passando a incluir o risco climático como fator determinante da governação.
Apesar do caráter semi-parlamentar do sistema político português, a Presidência da República desempenha um papel estratégico que vai além da simbologia constitucional. Em momentos de incerteza, o Presidente emerge como garante da estabilidade democrática, referência moral no debate público e ator influente na orientação da política externa, sobretudo nas relações com o espaço euro-mediterrânico.
Neste contexto, Marrocos ocupa uma posição central na equação estratégica portuguesa. A relação luso-marroquina assenta em fundamentos sólidos: proximidade geográfica, convergência de interesses em matéria de segurança regional, cooperação na gestão migratória, diálogo energético e a crescente centralidade de Marrocos enquanto elo entre a Europa e África. Trata-se de uma parceria estruturante para a estabilidade do Mediterrâneo Ocidental e do espaço atlântico.
Uma presidência orientada pela moderação e pela continuidade institucional tende a consolidar esta lógica de cooperação pragmática entre Portugal e Marrocos. Por contraste, uma eventual afirmação mais forte de correntes populistas ou radicalizadas poderia introduzir elementos de incerteza na política externa portuguesa, fragilizando a coerência das parcerias regionais, ainda que sem conduzir a ruturas imediatas.
As cheias recentes revelam igualmente um novo eixo estratégico nas relações entre Marrocos e a Península Ibérica: a segurança climática. As alterações climáticas passaram a influenciar diretamente a estabilidade política, a formulação de políticas públicas e a segurança humana. Neste domínio, a cooperação entre Marrocos e Portugal — integrada numa abordagem ibérica mais ampla — pode evoluir para um modelo regional em áreas como a prevenção de riscos naturais, a proteção civil, a adaptação climática e a transição energética sustentável.
Em conclusão, as eleições presidenciais portuguesas realizadas sob a pressão de uma crise climática demonstram que a estabilidade deixou de ser apenas uma opção política; tornou-se uma exigência geopolítica. Para Marrocos, os resultados deste escrutínio não se limitam à dimensão bilateral, mas inserem-se numa dinâmica mais ampla que moldará o futuro equilíbrio do Mediterrâneo Ocidental e do Atlântico partilhado.
