Rabat, 19 de fevereiro de 2026(MENA24)-
A brisa do Atlântico que bate nas imponentes muralhas de El Jadida traz consigo ecos de um passado distante, onde a história de duas nações se entrelaça de forma indelével. Caminhar pelas ruas desta cidade costeira é, efetivamente, aceitar um convite para uma viagem no tempo até à era dos Descobrimentos, quando navegadores lusos desafiavam o desconhecido. Antigamente batizada de Mazagão, a cidadela fortificada permanece erguida não apenas como um monumento de pedra, mas como um testemunho vivo da arquitetura militar e da influência cultural que Portugal exerceu no Norte de África durante mais de dois séculos.
Ao atravessar as portas da fortaleza, o visitante é imediatamente transportado para um cenário que desafia a geografia; a atmosfera respira a traça urbanística manuelina, contrastando singularmente com o entorno magrebino. As ruas traçadas a régua e esquadro, as fachadas dos edifícios e as antigas igrejas, como a da Assunção, revelam o esforço colossal empreendido pela Coroa Portuguesa para erguer uma "cidade ideal" renascentista em solo estrangeiro. É neste labirinto de pedra ocre que se percebe a dimensão do legado deixado, preservado de forma impressionante apesar das vicissitudes do tempo e dos conflitos que marcaram a região até à saída dos portugueses em 1769.
O ex-líbris deste património, contudo, encontra-se no subsolo. A famosa Cisterna Portuguesa, originalmente construída como um arsenal e convertida em reservatório de água, oferece um espetáculo visual de rara beleza. As abóbadas nervuradas de estilo gótico refletem-se num espelho de água permanente, criando uma ilusão ótica de infinitude que tem fascinado viajantes, fotógrafos e cineastas ao longo das décadas. A luz natural, que penetra por um óculo central no teto, rasga a penumbra e ilumina os pilares robustos, conferindo ao espaço uma aura de misticismo e solenidade que silencia quem ali entra.
Reconhecida como Património Mundial da UNESCO desde 2004, a cidade portuguesa de Mazagão é hoje celebrada não como um símbolo de conquista, mas como um espaço de intercâmbio de influências entre a cultura europeia e a marroquina. As muralhas, que outrora serviram para separar e defender, funcionam agora como um abraço histórico que protege a memória comum. O atual nome, El Jadida — que significa "A Nova" —, refere-se à reconstrução da cidade no século XIX, mas a alma do lugar permanece inegavelmente antiga e lusa.
Visitar El Jadida é, portanto, mais do que fazer turismo balnear ou explorar os souks tradicionais; é percorrer um capítulo de pedra e cal da história de Portugal fora de portas. Em cada baluarte e em cada esquina onde a arquitetura manuelina resiste, sente-se a persistência de uma herança que se recusa a ser esquecida. Ali, onde o Atlântico encontra a costa marroquina, o passado não é apenas uma recordação, mas uma presença física e tangível, provando que, mesmo séculos depois, a história continua a unir estes dois povos.