5 se Fevereiro de 2026 | Mohamed El Archany
Na manhã de ontem, quarta-feira, o Exército argelino avançou até ao ponto fronteiriço de Qsar Ich, na província marroquina de Figuig, iniciando um processo de demarcação unilateral das fronteiras, aproveitando-se da conjuntura difícil vivida pelo Reino, devido às cheias que atingiram sobretudo o noroeste do país, mobilizando o Estado e os cidadãos.
Fontes locais, citadas por redes sociais e alguns jornais eletrónicos, confirmaram que os habitantes de Qsar Ich viveram, desde as primeiras horas da manhã até ao final da tarde de ontem, um clima de forte tensão e ansiedade, após terem ouvido disparos de armas de fogo para o ar, provenientes do lado argelino, num comportamento amplamente interpretado como uma mensagem de pressão psicológica e demonstração de força.
Essas movimentações atingiram áreas agrícolas exploradas pelos agricultores locais há décadas, tratadas agora como se fossem terras pertencentes à soberania argelina, o que ameaça privar os camponeses das suas propriedades e colocá-los perante uma nova realidade que poderá obrigá-los a abandonar à força pomares que constituem a sua única fonte de subsistência.
O que os habitantes de Ich viveram ontem foi uma intimidação clara: tiros para o ar de manhã e à noite, exibição vazia de poder e uma tentativa de subjugação psicológica de uma população isolada, cujo “único erro” é estar profundamente enraizada na sua terra.
As terras em causa não são um vazio geográfico, mas sim pomares trabalhados por gerações de agricultores de Ich, que com elas construíram uma relação de vida impossível de romper por uma decisão militar.
O mais doloroso é que quem pratica estes atos esquece — ou finge esquecer — que esta região foi outrora um refúgio e um apoio fundamental à resistência argelina, tendo os seus habitantes aberto as portas das suas casas aos combatentes durante o período da colonização francesa, partilhando com eles água, pão e armas.
O que aconteceu ontem em Ich não é um simples diferendo fronteiriço, mas uma ferida aberta na memória da região.
A terra tomada pela força não confere legitimidade, e a história pisada não permanece em silêncio por muito tempo.
Ich não é um número num mapa, nem uma margem apagável, mas uma memória viva e uma terra cujos donos continuam aqui — firmes, testemunhas, e nunca passageiros.
Até ao momento, não foi emitido qualquer comunicado ou comentário oficial, nem por parte das autoridades marroquinas, nem das autoridades argelinas.

