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Do choque ao diálogo: Marraquexe redefine a relação com o outro

Rabat, 6 de maio de 2026 (MENA24)- Num cenário internacional marcado por tensões identitárias e pelo crescimento do extremismo, a “Declaração de Marraquexe sobre os direitos das minorias religiosas no mundo islâmico” afirma-se como uma resposta intelectual estruturada e coletiva. Esta foi a principal ideia defendida por Abdellah Boussouf, académico marroquino e secretário-geral do Conselho da Comunidade Marroquina no Estrangeiro, durante uma conferência no âmbito do Fórum de Abu Dhabi para a Paz, realizada no Salão Internacional do Livro de Rabat 2026. De acordo com Boussouf, a relevância da declaração está profundamente ligada ao contexto histórico em que surgiu, num período marcado pelo impacto dos atentados de 11 de setembro e pela expansão de grupos como a Al-Qaeda e o Daesh. Estes acontecimentos contribuíram para uma associação generalizada entre o Islão e a violência, sobretudo nos países ocidentais, onde muitos muçulmanos passaram a ser vistos sob suspeita, evidenciando a ausência de respostas teológicas claras que distinguissem religião e extremismo. O académico destacou ainda que o pensamento islâmico tradicional, frequentemente centrado em conceitos como o estatuto de “dhimmi”, se revelou insuficiente face às exigências modernas de cidadania plena e igualdade. Essa limitação reforçou a necessidade de um novo esforço interpretativo capaz de oferecer fundamentos mais adequados ao contexto contemporâneo e às sociedades plurais. É neste quadro que a Declaração de Marraquexe ganha importância, ao resultar de um esforço coletivo de mais de 300 estudiosos e representantes de instituições islâmicas de referência, sob a égide do rei Mohammed VI, enquanto Comandante dos Fiéis. Para Boussouf, esta combinação de legitimidade científica, institucional e simbólica confere ao documento uma autoridade particular, reforçada também pela escolha de Marraquexe, cidade historicamente associada à convivência entre diferentes comunidades religiosas. Por fim, o papel de Abdallah bin Bayyah, principal impulsionador da iniciativa, foi considerado essencial para a profundidade da reflexão proposta. Com uma sólida formação em estudos islâmicos e um amplo conhecimento da cultura ocidental, conseguiu promover uma abordagem renovada do pensamento religioso. Assim, a Declaração de Marraquexe apresenta-se não apenas como uma resposta conjuntural, mas como um quadro duradouro para repensar a convivência e o reconhecimento do outro num mundo cada vez mais interligado.